Importância
Sarcoptes scabiei é um ácaro escavador responsável pela sarna sarcóptica em cães, suínos e diversos mamíferos domésticos e silvestres. A doença é altamente contagiosa e causa prurido intenso, dermatite, perda de condição corporal e comprometimento do bem-estar.
Variantes adaptadas a animais podem provocar dermatite transitória em pessoas expostas. Em rebanhos, canis e abrigos, a rápida transmissão por contato e fômites exige tratamento dos contactantes e controle ambiental.
História e Descoberta
- Descobridor: Giovanni Cosimo Bonomo e Giacinto Cestoni demonstraram em 1687 a relação entre o ácaro e a escabiose, um marco inicial da parasitologia.
A demonstração de um agente visível causando uma doença cutânea ocorreu muito antes da aceitação ampla da teoria microbiana. Nos séculos seguintes, o ácaro foi encontrado em numerosos mamíferos e recebeu denominações de variedades associadas aos hospedeiros. Estudos de transmissão mostraram preferência pelo hospedeiro, mas também potencial de passagem entre espécies. A introdução de raspados cutâneos, sorologia e métodos moleculares melhorou a investigação, embora a baixa carga em alguns animais ainda produza falsos negativos. Genômica e marcadores populacionais hoje ajudam a compreender surtos em fauna silvestre, animais de produção e companhia.
Classificação Taxonômica de Sarcoptes scabiei
- Reino: Animalia
- Filo: Arthropoda
- Classe: Arachnida
- Subclasse: Acari
- Ordem: Sarcoptiformes
- Família: Sarcoptidae
- Gênero: Sarcoptes
- Espécie: Sarcoptes scabiei
Morfologia
O corpo é oval, semelhante a uma tartaruga, achatado ventralmente e convexo no dorso. A cutícula possui estrias transversais, espinhos triangulares e cerdas. Adultos têm quatro pares de pernas curtas; as posteriores não ultrapassam a margem corporal.
Fêmeas medem aproximadamente 0,30 a 0,45 mm, e machos 0,21 a 0,28 mm. Ovos ovais medem cerca de 0,10 a 0,15 mm. Larvas possuem três pares de pernas; ninfas e adultos possuem quatro. A fêmea escava túneis no estrato córneo e deposita ovos.

Morfologia ilustrativa de Sarcoptes scabiei, incluindo diferenças entre adultos e estágios imaturos.
Epidemiologia de Sarcoptes scabiei
O ácaro ocorre mundialmente, inclusive no Brasil, e pode afetar cães, suínos, bovinos, ovinos, caprinos, equinos, coelhos e fauna silvestre. O ciclo completo dura cerca de duas a três semanas e ocorre sobre o hospedeiro. A transmissão se dá principalmente por contato direto; camas, escovas, caixas de transporte e instalações podem atuar como fômites por período limitado.
Superlotação, entrada de animais sem quarentena, contato com fauna silvestre e ausência de tratamento dos contactantes favorecem surtos. Cães assintomáticos podem participar da cadeia. Em suínos, matrizes infestadas transmitem o ácaro aos leitões e mantêm a infestação na granja.
Patogenia
Fêmeas escavam o estrato córneo, e antígenos da saliva, fezes e estruturas do ácaro desencadeiam hipersensibilidade. O prurido intenso leva a autotraumatismo, alopecia, escoriações, crostas e espessamento cutâneo. Infecções bacterianas secundárias podem agravar o quadro.
Em animais cronicamente afetados, dor, interrupção do descanso e gasto energético reduzem ganho de peso e condição corporal. A sarna crostosa contém grande número de ácaros e é especialmente contagiosa.
Sinais Clínicos
Em cães, prurido súbito e intenso é característico. Lesões papulocrostosas aparecem frequentemente nas margens das orelhas, cotovelos, jarretes, tórax ventral e abdômen. O reflexo pínulo-pedal pode estar presente, mas não é definitivo.
Em suínos, observam-se prurido, fricção, pápulas, crostas em orelhas e pele espessada, além de pior conversão alimentar. Outros hospedeiros apresentam distribuição variável. Pessoas em contato podem desenvolver pápulas pruriginosas transitórias.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: múltiplos raspados cutâneos superficiais nas margens de lesões não escoriadas podem demonstrar ácaros, ovos ou fezes. A baixa sensibilidade significa que resultado negativo não exclui sarna. História, padrão das lesões, contactantes e resposta terapêutica completam a avaliação.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: ELISA pode detectar anticorpos em cães e suínos, com limitações no início da infecção. PCR em raspado ou swab confirma DNA e apoia tipagem epidemiológica, mas depende de material parasitário suficiente.
- Indicação de Teste: investigar prurido intenso contagioso, lesões em pavilhões auriculares e cotovelos, surtos em grupos ou dermatite humana associada. Diferenciar de alergias, dermatofitose, demodicose e outras ectoparasitoses.
Tratamento
Isoxazolinas, selamectina, moxidectina e outras lactonas macrocíclicas podem ser usadas conforme espécie, produto registrado e orientação veterinária. Protocolos variam e precisam cobrir o ciclo do ácaro. Alguns usos são extrabula e exigem avaliação de segurança.
Todos os animais contactantes devem ser tratados. Infecção bacteriana, inflamação intensa e debilidade podem exigir suporte adicional. Em animais de produção, respeitam-se carências e regulamentação.
Prevenção e Controle
Isolar casos, tratar contactantes, lavar camas e higienizar utensílios e instalações são medidas centrais. Novos animais devem passar por inspeção e quarentena. Equipamentos não devem circular entre lotes ou canis sem limpeza.
Em populações, o acompanhamento clínico após o tratamento identifica falhas de aplicação ou reinfestação. O Guia Rápido de Ectoparasitas de Cães e Gatos auxilia no diagnóstico diferencial.
Estudos Recentes
Estudos genômicos investigam proteínas de interação com o hospedeiro, antígenos para sorodiagnóstico e alvos vacinais. Métodos moleculares e microssatélites ajudam a rastrear transmissão entre fauna silvestre, animais domésticos e pessoas.
Pesquisas clínicas também comparam eficácia e duração de diferentes acaricidas. A baixa sensibilidade do raspado permanece um desafio e estimula combinações de exame, sorologia e PCR.
Curiosidades
- Fato Interessante: a relação causal entre o ácaro e a escabiose foi demonstrada em 1687, tornando a sarna uma das primeiras doenças reconhecidas como causada por um agente microscópico.
Referências
- Merck Veterinary Manual – Mange in dogs and cats
- Revisão científica – A review of Sarcoptes scabiei
- Revisão científica – Zoonotic episodes of scabies





