O que você vai encontrar neste guia
Reunimos os principais ectoparasitas de cães e gatos com relevância clínica no Brasil, abrangendo carrapatos, pulgas, ácaros e piolhos. Para cada parasita, são apresentados o grupo taxonômico, a localização preferencial no hospedeiro, o principal sinal clínico, o método diagnóstico recomendado, o fármaco de escolha e o potencial zoonótico. O recorte prioriza espécies de ocorrência documentada no território brasileiro e com impacto direto na saúde e bem-estar dos animais de companhia.
Por que conhecer os Ectoparasitas de Cães e Gatos
Os ectoparasitas de cães e gatos representam um dos grupos parasitários de maior relevância na rotina da clínica de pequenos animais no Brasil. Além do desconforto direto que causam — prurido intenso, alopecia, automutilação e dermatites —, muitos deles atuam como vetores de agentes infecciosos de alta importância, como Babesia vogeli, Ehrlichia canis, Rickettsia spp. e Bartonella spp., amplificando consideravelmente seu impacto clínico. A infestação por pulgas, em particular, é endêmica nas regiões metropolitanas brasileiras durante todo o ano, favorecida pelo clima tropical e pelas condições de manejo doméstico.
Do ponto de vista zoonótico, vários ectoparasitas de cães e gatos representam risco real para os tutores e para profissionais de saúde animal. Ctenocephalides felis, a pulga do gato, é o principal vetor de Dipylidium caninum em crianças e transmite Bartonella henselae (febre por arranhadura do gato) ao ser humano. Carrapatos como Amblyomma aureolatum e Rhipicephalus sanguineus são vetores de riquétsias de notificação compulsória no Brasil. O conhecimento desse grupo é, portanto, indispensável tanto para o controle parasitário quanto para a vigilância de zoonoses.
Tabela Comparativa: Ectoparasitas de Cães e Gatos
| Parasita | Grupo | Localização no hospedeiro | Principal sinal clínico | Diagnóstico recomendado | Fármaco de escolha | Zoonose |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Rhipicephalus sanguineus | Carrapato | Pavilhão auricular, pescoço, dedos | Anemia, transmissão de Ehrlichia e Babesia | Inspeção visual, PCR de sangue | Isoxazolinas, amitraz | Potencial |
| Amblyomma aureolatum | Carrapato | Cabeça, pescoço | Febre maculosa (vetor de Rickettsia) | Inspeção visual, PCR de carrapato | Isoxazolinas, permetrina | Sim |
| Amblyomma ovale | Carrapato | Pescoço, cabeça | Vetor de Rickettsia parkeri | Inspeção visual, PCR | Isoxazolinas | Sim |
| Ctenocephalides felis * | Pulga | Dorso, base da cauda, abdômen | Dermatite alérgica à picada de pulga (DAPP), prurido intenso | Inspeção visual, pente fino | Isoxazolinas, imidacloprido + permetrina | Sim |
| Ctenocephalides canis | Pulga | Dorso, base da cauda | Prurido, DAPP, vetor de Dipylidium caninum | Inspeção visual, pente fino | Isoxazolinas, espinetoram | Potencial |
| Sarcoptes scabiei var. canis | Ácaro | Face, orelhas, cotovelos, abdômen | Sarna sarcóptica, prurido intenso, crostas | Raspado cutâneo profundo, PCR | Isoxazolinas, ivermectina | Sim |
| Demodex canis | Ácaro | Folículos pilosos, pele | Alopecia focal ou generalizada, pústulas | Raspado cutâneo profundo, tricograma | Isoxazolinas, milbemicina oxima | Não |
| Otodectes cynotis | Ácaro | Canal auditivo externo | Otite, prurido auricular intenso, cerume escuro | Otoscopia, exame de swab auricular | Selamectina, milbemicina + praziquantel | Não |
| Cheyletiella spp. | Ácaro | Dorso, linha média | “Caspa andante”, descamação, prurido leve | Fita adesiva, raspado superficial | Selamectina, ivermectina | Potencial |
| Linognathus setosus | Piolho (sugador) | Cabeça, pescoço, dorso (cães) | Prurido, alopecia, anemia em infestações graves | Inspeção visual, tricograma | Permetrina, selamectina | Não |
| Felicola subrostratus | Piolho (mastigador) | Cabeça, pescoço (gatos) | Prurido, alopecia, pelagem opaca | Inspeção visual, pente fino | Selamectina, imidacloprido | Não |
*️⃣ Itens marcados com * possuem Dossiê completo publicado no blog. Veja em: Aprofunde seu Conhecimento.
Como usar este guia na prática
Na rotina clínica de pequenos animais, este guia é especialmente útil durante a anamnese e o exame físico de animais com queixa dermatológica ou otológica. Ao identificar o sinal clínico predominante — prurido, alopecia, crostas, caspa ou otite — consulte a coluna correspondente para orientar a hipótese diagnóstica e a solicitação de exames. A distinção entre ácaros que habitam folículos (Demodex) e ácaros de superfície (Sarcoptes, Cheyletiella, Otodectes) é determinante para a escolha do método diagnóstico: o raspado profundo é indispensável para Demodex e Sarcoptes, enquanto técnicas de superfície são suficientes para os demais.
É importante considerar que infestações por múltiplos ectoparasitas são comuns, especialmente em animais sem controle antiparasitário regular. A presença de carrapatos deve sempre levantar suspeita de erliquiose, babesiose ou riquetsiose — doenças cujos sinais clínicos frequentemente superam em gravidade os do próprio carrapato. O diagnóstico molecular por PCR é o método de maior acurácia para identificação de espécies de carrapatos e detecção de hemoparasitas transmitidos. Os sinais apresentados nesta tabela representam os quadros mais frequentes; a apresentação clínica pode variar conforme a carga parasitária, a imunidade do animal e a presença de infecção secundária.
Aprofunde seu conhecimento
- 🔬 Leishmania spp. – Dossiê do Parasita
- 🔬 Babesia spp. – Dossiê do Parasita
- 🔬 Dirofilaria immitis – Dossiê do Parasita
Referências
- CAPC – Parasites in Pets: Fleas, Ticks and Mites
- OIE/WOAH – Mange (Sarcoptic)
- CDC – Ticks and Tickborne Diseases





