Importância
Bunostomum spp. são ancilostomídeos hematófagos do intestino delgado de ruminantes. B. phlebotomum afeta principalmente bovinos, enquanto B. trigonocephalum ocorre em ovinos e caprinos. Infecções intensas causam anemia, hipoproteinemia, edema submandibular, diarreia escura e perda de desempenho.
O problema é mais relevante em animais jovens mantidos em ambientes quentes, úmidos e enlameados. No Brasil e em outras regiões tropicais da América do Sul, a penetração cutânea de larvas e as infecções mistas com outros nematoides gastrintestinais dificultam o diagnóstico clínico isolado.
História e Descoberta
- Descobridor: Félix Railliet descreveu Bunostomum phlebotomum em bovinos em 1900; B. trigonocephalum foi reconhecido anteriormente a partir de helmintos de ovinos e caprinos e posteriormente incorporado ao gênero.
Os ancilostomídeos de ruminantes foram inicialmente agrupados com outros estrongilídeos de cápsula bucal desenvolvida. A observação da extremidade anterior curvada dorsalmente, das lâminas cortantes e do comportamento hematófago permitiu separar Bunostomum. Experimentos no início do século XX mostraram que larvas infectantes podem atravessar a pele, migrar pelos pulmões e chegar ao intestino, enquanto a ingestão permite estabelecimento mais direto. A coprocultura e a identificação de larvas tornaram-se necessárias porque os ovos se parecem com os de outros estrongilídeos. A intensificação do controle anti-helmíntico reduziu cargas elevadas em muitos rebanhos, mas resistência, tratamento sem diagnóstico e ambientes permanentemente úmidos mantêm o gênero relevante em programas integrados.
Classificação Taxonômica de Bunostomum spp.
- Reino: Animalia
- Filo: Nematoda
- Classe: Chromadorea
- Ordem: Rhabditida
- Superfamília: Ancylostomatoidea
- Família: Ancylostomatidae
- Gênero: Bunostomum
- Espécies principais: B. phlebotomum e B. trigonocephalum
Morfologia
Os adultos são robustos e apresentam extremidade anterior curvada dorsalmente, formando aspecto de gancho. A cápsula bucal é grande, com lâminas ou placas cortantes. Em B. phlebotomum, machos medem aproximadamente 10 a 12 mm e fêmeas 16 a 26 mm; em B. trigonocephalum, machos medem cerca de 12 a 17 mm e fêmeas 19 a 26 mm.
Os ovos são ovais, de casca fina e do tipo estrongilídeo, medindo aproximadamente 75 a 100 µm por 38 a 55 µm. A diferenciação de outros nematoides depende de coprocultura, morfologia larval ou métodos moleculares.

Morfologia ilustrativa de Bunostomum spp., destacando a cápsula bucal hematófaga.
Epidemiologia de Bunostomum spp.
O gênero apresenta distribuição mundial, com maior importância em climas tropicais e subtropicais. Bovinos são os principais hospedeiros de B. phlebotomum; ovinos e caprinos abrigam B. trigonocephalum. Não há hospedeiro intermediário.
Ovos saem nas fezes e originam L3 infectantes no ambiente. As larvas são ingeridas ou penetram a pele, especialmente em membros expostos à lama. Após penetração, podem migrar pela circulação e pulmões antes de serem deglutidas e alcançarem o intestino delgado. Alta lotação, umidade, drenagem deficiente e animais jovens aumentam o risco.
Patogenia
Adultos prendem-se à mucosa intestinal com a cápsula bucal e ingerem sangue. A movimentação entre pontos de fixação deixa pequenas hemorragias, intensificando perda sanguínea e proteica. A mucosa torna-se inflamada, espessada e edemaciada.
Larvas que penetram a pele causam dermatite, prurido e lesões nos membros. Durante migração pulmonar podem ocorrer tosse e dispneia discretas. A soma de anemia, hipoproteinemia e enterite reduz ganho de peso e resistência a outras doenças.
Sinais Clínicos
Bezerros, cordeiros e cabritos com infecção intensa apresentam mucosas pálidas, fraqueza, apatia, queda de consumo, perda de peso e diarreia escura. Hipoproteinemia pode causar edema submandibular. Casos graves evoluem para prostração e morte.
Animais adultos frequentemente têm infecção subclínica ou mista. Dermatite e inquietação podem aparecer após penetração larval. Os sinais se confundem com hemoncose, fasciolose e outras parasitoses hematófagas.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: OPG por McMaster detecta ovos do tipo estrongilídeo, mas não diferencia o gênero. Coprocultura com identificação de L3, necropsia e contagem de adultos no intestino aumentam especificidade. Hemograma e proteínas séricas avaliam impacto clínico.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: PCR e qPCR em fezes, larvas de coprocultura ou adultos permitem diferenciar Bunostomum de outros nematoides em infecções mistas. Sorologia não é rotina.
- Indicação de Teste: investigar ruminantes jovens com anemia, edema submandibular, diarreia e baixo ganho de peso, sobretudo em instalações úmidas. Associar OPG a coprocultura ou painel molecular antes de atribuir o quadro a um único gênero.
Tratamento
Benzimidazóis, levamisol e lactonas macrocíclicas podem apresentar atividade contra Bunostomum, conforme produto autorizado e perfil de resistência do rebanho. A escolha deve respeitar espécie, categoria, carência e resultados de monitoramento.
Animais muito anêmicos ou hipoproteinêmicos precisam de suporte e redução de estresse. A resposta deve ser verificada por redução de OPG quando apropriado. Tratamentos frequentes sem avaliação selecionam resistência e não corrigem as condições ambientais.
Prevenção e Controle
Drenar currais, manter áreas de alimentação secas, reduzir lotação e evitar acúmulo de fezes diminuem a sobrevivência de larvas e a penetração cutânea. Pastejo rotacionado e proteção de categorias jovens devem integrar o manejo.
OPG periódico, coprocultura, teste de redução da contagem de ovos e tratamento seletivo reduzem uso desnecessário de anti-helmínticos. A interpretação deve considerar infecções mistas. Consulte o Guia Rápido de Nematóides Gastrointestinais de Ruminantes, o dossiê de Haemonchus contortus e o panorama sobre Resistência Anti-Helmíntica.
Estudos Recentes
Painéis de qPCR e metabarcoding estão permitindo quantificar diferentes gêneros em amostras fecais mistas, superando a baixa especificidade do OPG. Essas ferramentas ajudam a relacionar carga de Bunostomum a anemia e perdas produtivas.
Estudos de controle integrado avaliam drenagem, manejo de pastagens, refúgio parasitário e tratamento seletivo para preservar eficácia dos fármacos. A resistência deve ser monitorada localmente, pois resultados de outros nematoides não podem ser extrapolados automaticamente.
Curiosidades
- Fato Interessante: além de ser ingerida, a larva infectante pode atravessar a pele dos membros de ruminantes mantidos em lama e realizar migração pulmonar antes de chegar ao intestino.
Referências
- MSD Veterinary Manual – Common gastrointestinal parasites of cattle
- FAO – Post-mortem differential parasite counts
- Memórias do Instituto Oswaldo Cruz – Ultrastructure of adult Bunostomum phlebotomum
- Australian Society for Parasitology – Parasites of sheep and goats





