Importância
Angiostrongylus vasorum é um nematoide metastrongilídeo que parasita artérias pulmonares e o ventrículo direito de cães e outros canídeos. A angiostrongilose canina pode causar doença respiratória, insuficiência cardiopulmonar, alterações hemorrágicas e manifestações neurológicas, mas também pode permanecer subclínica.
O diagnóstico é desafiador porque os sinais são variados e a eliminação de larvas nas fezes pode ser intermitente. O reconhecimento do ciclo com moluscos e a combinação de Baermann, testes de antígeno e PCR são essenciais em áreas de ocorrência ou diante de cães com exposição compatível.
História e Descoberta
- Descobridor: Serres reconheceu o nematoide em um cão em Toulouse, França, em 1853; Baillet publicou a descrição formal em 1866, e Kamensky o incluiu no gênero Angiostrongylus em 1905.
As primeiras observações localizaram vermes finos no coração direito e na circulação pulmonar de cães. O esclarecimento posterior do ciclo demonstrou que gastrópodes atuam como hospedeiros intermediários e que as larvas eliminadas nas fezes são fundamentais para a transmissão. Durante muito tempo a infecção foi associada principalmente a focos europeus, mas levantamentos em cães e canídeos silvestres ampliaram sua distribuição conhecida. Na América do Sul, registros esparsos e limitações diagnósticas indicam possível subestimação. A introdução de testes de antígeno e PCR permitiu investigar casos com Baermann negativo e quadros atípicos.
Classificação Taxonômica de Angiostrongylus vasorum
- Reino: Animalia
- Filo: Nematoda
- Classe: Chromadorea
- Ordem: Rhabditida
- Superfamília: Metastrongyloidea
- Família: Angiostrongylidae
- Gênero: Angiostrongylus
- Espécie: Angiostrongylus vasorum
Morfologia
Os adultos são nematoides finos e avermelhados. Machos medem aproximadamente 14 a 18 mm e apresentam bolsa copulatória pequena e espículos. Fêmeas medem cerca de 18 a 25 mm e podem exibir aparência de “fio de barbeiro”, produzida pelo contraste entre intestino preenchido por sangue e estruturas reprodutivas claras entrelaçadas.
As larvas de primeiro estágio medem aproximadamente 280 a 330 µm. Apresentam extremidade cefálica com pequeno botão e cauda sinuosa ou encurvada, com entalhe e espinho dorsal, conjunto morfológico relevante no exame pelo método de Baermann.

Estrutura corporal ilustrativa de Angiostrongylus vasorum, incluindo adultos e características diagnósticas das larvas de primeiro estágio.
Epidemiologia de Angiostrongylus vasorum
A distribuição é focal e depende da presença de canídeos infectados, gastrópodes e condições ambientais favoráveis. O agente é reconhecido em vários países europeus e em partes das Américas. Na América do Sul, achados em cães e canídeos silvestres sugerem circulação mais ampla do que a diagnosticada. Áreas úmidas, jardins, matas e ambientes com caracóis ou lesmas favorecem o ciclo.
Cães e canídeos silvestres são hospedeiros definitivos. Lesmas e caracóis são hospedeiros intermediários; rãs e outros animais podem atuar como hospedeiros paratênicos. O cão adquire a infecção ao ingerir gastrópodes, suas secreções contaminadas ou hospedeiros paratênicos. Larvas migram por linfonodos e circulação até coração direito e artérias pulmonares, onde amadurecem. Ovos eclodem em capilares pulmonares; as larvas L1 atravessam alvéolos, sobem pela árvore respiratória, são deglutidas e eliminadas nas fezes.
Cães jovens, acesso livre ao exterior, hábito de ingerir pequenos animais e convivência com canídeos silvestres elevam o risco. Consulte também o Guia Rápido de Principais Parasitas de Cães.
Patogenia
Adultos nas artérias pulmonares provocam endarterite, trombose, hipertensão pulmonar e sobrecarga do ventrículo direito. Ovos e larvas nos capilares desencadeiam inflamação, hemorragia, granulomas e lesão do parênquima pulmonar, reduzindo a troca gasosa.
Alguns cães desenvolvem coagulopatia complexa, com sangramentos espontâneos que não se explicam apenas pela carga de vermes. Migração ectópica de larvas ou hemorragias podem produzir alterações neurológicas e oculares. A intensidade clínica varia conforme carga, duração da infecção e resposta do hospedeiro.
Sinais Clínicos
Os sinais respiratórios incluem tosse, taquipneia, intolerância ao exercício, dispneia e ruídos pulmonares anormais. Podem ocorrer fadiga, perda de peso, síncope e sinais de insuficiência cardíaca direita. Casos leves ou iniciais podem apresentar apenas tosse persistente.
Petéquias, equimoses, epistaxe, sangramento prolongado, hematomas ou anemia sugerem envolvimento hemostático. Ataxia, convulsões, paresia e alterações comportamentais podem ocorrer em casos neurológicos. A diversidade de apresentações exige incluir a doença no diagnóstico diferencial de síndromes respiratórias e hemorrágicas.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: o método de Baermann em fezes frescas identifica larvas L1; amostras coletadas em três dias aumentam a sensibilidade diante da eliminação intermitente. Radiografia torácica, ecocardiografia, hemograma e testes de coagulação avaliam repercussões, mas não confirmam isoladamente a infecção. Veja o guia de técnicas coproparasitológicas.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: testes de antígeno circulante e anticorpos complementam o Baermann. PCR ou qPCR pode ser realizada em fezes, sangue ou lavado broncoalveolar, conforme validação laboratorial. A combinação melhora a detecção em diferentes fases.
- Indicação de Teste: recomenda-se testar cães com sinais respiratórios persistentes, alterações hemorrágicas inexplicadas, achados pulmonares compatíveis ou histórico de exposição a gastrópodes. Resultados negativos isolados devem ser interpretados com o estágio da infecção e a qualidade da amostra.
Tratamento
Lactonas macrocíclicas, como moxidectina ou milbemicina oxima, e benzimidazóis, como fenbendazol, são utilizados em protocolos veterinários conforme produto registrado e condição clínica. A escolha considera gravidade, risco de reação inflamatória à morte dos parasitas e necessidade de repetição ou monitoramento.
Cães com dispneia, insuficiência cardíaca ou sangramento podem exigir internação, oxigenoterapia, suporte cardiovascular, hemoderivados e restrição de exercício. A avaliação individual é indispensável, pois complicações podem ocorrer durante a eliminação dos vermes.
Prevenção e Controle
Produtos preventivos com eficácia contra A. vasorum podem ser indicados em áreas de risco segundo registro e orientação veterinária. Deve-se impedir, quando possível, que cães ingiram lesmas, caracóis, rãs ou presas, recolher fezes rapidamente e reduzir abrigo e umidade excessiva em quintais sem recorrer a moluscicidas tóxicos para animais.
O controle de canídeos silvestres não é recomendado; esses hospedeiros devem ser considerados na vigilância ambiental. Cães recém-introduzidos, viajantes ou com vida ao ar livre merecem avaliação epidemiológica. O diagnóstico molecular em parasitologia veterinária pode complementar a investigação em casos selecionados. Dirofilaria immitis também integra os diferenciais cardiopulmonares e possui dossiê próprio.
Estudos Recentes
Estudos recentes avaliam a expansão geográfica do parasito, a participação de canídeos silvestres e a influência de temperatura e umidade sobre hospedeiros intermediários. Mapas de risco e vigilância combinando dados clínicos, coprológicos e sorológicos ajudam a reconhecer áreas de transmissão.
Novos ensaios buscam aumentar sensibilidade e diferenciar infecção atual de exposição prévia. Também se investiga a fisiopatologia das coagulopatias e a melhor combinação entre prevenção regular, diagnóstico precoce e acompanhamento após o tratamento.
Curiosidades
- Fato Interessante: os adultos vivem na circulação pulmonar, mas a forma procurada no exame fecal é a larva L1, que atravessa os pulmões, é deglutida e chega às fezes.
Referências
- Companion Animal Parasite Council – Angiostrongylus vasorum
- Revisão científica – Angiostrongylus vasorum in South America
- Revisão clínica – Canine angiostrongylosis: clinical diagnosis and treatment
- Revisão de biologia e diagnóstico – Angiostrongylus vasorum: the French heartworm





