Importância
Dermanyssus gallinae, conhecido como ácaro-vermelho das aves, é um ectoparasita hematófago de grande importância para poedeiras, matrizes e aves de criação doméstica. As infestações comprometem o bem-estar por causar prurido, inquietação e perda de sangue; em cargas altas, podem provocar anemia, redução da postura, pior qualidade dos ovos e mortalidade.
O parasita passa a maior parte do ciclo escondido nas instalações e procura as aves principalmente à noite. Esse comportamento favorece populações numerosas, dificulta o diagnóstico por inspeção diurna e exige que o controle alcance frestas, poleiros, ninhos e equipamentos, além de considerar as aves.
História e Descoberta
- Descobridor: Charles De Geer descreveu a espécie em 1778 como Acarus gallinae; posteriormente ela foi incluída no gênero Dermanyssus.
As primeiras descrições se basearam no corpo achatado, nas oito pernas dos estágios móveis e na associação com galinheiros. A coloração variável confundia observadores: indivíduos sem alimentação são acinzentados, enquanto os recém-alimentados ficam vermelhos e escurecem à medida que o sangue é digerido. No início do século XX, estudos do ciclo demonstraram que o ácaro se alimenta rapidamente durante a noite e permanece escondido na instalação durante o dia. Isso explicou por que tratar apenas a ave falhava. Nas décadas seguintes, o crescimento da avicultura de postura evidenciou perdas econômicas, resistência a acaricidas e riscos de resíduos. Armadilhas de monitoramento, identificação molecular e pesquisas com controle físico e biológico ampliaram as alternativas ao manejo exclusivamente químico.
Classificação Taxonômica de Dermanyssus gallinae
- Reino: Animalia
- Filo: Arthropoda
- Classe: Arachnida
- Ordem: Mesostigmata
- Família: Dermanyssidae
- Gênero: Dermanyssus
- Espécie: D. gallinae
Morfologia
O adulto não alimentado mede aproximadamente 0,6–0,8 mm e possui corpo oval, achatado dorsoventralmente, acinzentado e com quatro pares de pernas. Após o repasto sanguíneo pode se aproximar de 1 mm, torna-se vermelho vivo e depois castanho-escuro. As quelíceras alongadas perfuram a pele, e a placa dorsal afunilada ajuda a diferenciar o ácaro de outros mesostigmatas.
O ovo é esbranquiçado e mede cerca de 0,4 mm. A larva possui três pares de pernas e não se alimenta; protoninfa, deutoninfa e adulto apresentam quatro pares. A diferenciação de Ornithonyssus spp. requer observar placas, cerdas e peças bucais em montagem microscópica, pois tamanho e aspecto geral se sobrepõem.
Epidemiologia de Dermanyssus gallinae
O ácaro ocorre mundialmente em galinhas, perus, pombos, canários e aves silvestres. Não necessita de hospedeiro intermediário. Fêmeas põem ovos em frestas após o repasto; larvas, ninfas e adultos completam o ciclo no ambiente. Em condições favoráveis, a passagem de ovo a adulto pode ocorrer em uma a duas semanas. Os adultos toleram longos períodos sem alimentação, permitindo que galpões vazios continuem infestados.
Sistemas com ninhos, poleiros, junções e matéria orgânica oferecem muitos abrigos. Temperatura e umidade influenciam o desenvolvimento. A introdução de aves, caixas e equipamentos contaminados e o contato com ninhos de aves sinantrópicas ampliam o risco. No Rio Grande do Sul, levantamentos encontraram D. gallinae em aviários e ninhos de aves; pesquisas em instalações brasileiras confirmam a importância da matéria orgânica como abrigo de ácaros de interesse veterinário.
Patogenia
Cada repasto remove pequena quantidade de sangue, mas milhares de ácaros alimentando-se repetidamente podem causar anemia importante. As picadas provocam irritação, inflamação cutânea e interrupção do repouso. O estresse altera o comportamento, aumenta o consumo de alimento e compromete desempenho e qualidade dos ovos.
O ácaro pode carregar microrganismos aviares, embora detectar um agente no artrópode não prove transmissão eficiente no campo. Pessoas que trabalham ou vivem perto de focos podem apresentar dermatite pruriginosa temporária. O ácaro pica humanos, mas não estabelece infestação permanente no corpo humano.
Sinais Clínicos
Em poedeiras e matrizes: inquietação noturna, bicagem de penas, palidez de crista e barbela, queda de postura, ovos manchados, perda de condição corporal e pior conversão alimentar podem ocorrer. Infestações altas produzem anemia, fraqueza e mortalidade, principalmente em aves jovens ou debilitadas.
Em aves ornamentais ou domésticas: prurido, abandono do ninho, anemia e piora do estado geral são possíveis. Como os ácaros se afastam do hospedeiro durante o dia, a plumagem pode parecer pouco infestada na inspeção comum. Sinais inespecíficos exigem diferenciação de Ornithonyssus spp., piolhos, percevejos e causas nutricionais de queda de produção.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: Inspecionar o galpão à noite com lanterna, procurando pontos móveis avermelhados ou escuros em poleiros, ninhos e frestas. Passar papel branco nas superfícies pode revelar estrias de sangue. Armadilhas de papelão ou tubos corrugados ajudam a detectar e acompanhar a população. A identificação microscópica confirma a espécie.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: PCR e sequenciamento de marcadores mitocondriais ou ribossomais diferenciam D. gallinae de ácaros próximos e apoiam estudos de linhagens e resistência. O Guia de Diagnóstico Molecular em Parasitologia Veterinária apresenta os princípios desses ensaios. Ensaios sorológicos experimentais medem exposição de aves, mas não substituem o monitoramento direto na rotina.
- Indicação de Teste: Investigar lotes com inquietação noturna, anemia, queda de postura ou histórico de falha de controle. Coletar ácaros do ambiente, registrar o local das armadilhas e repetir a contagem após a intervenção. A ausência de ácaros sobre a ave durante o dia não exclui infestação.
Tratamento
O controle pode incluir acaricidas aplicados às instalações e, onde houver produto registrado, tratamento sistêmico das aves. Fluralaner administrado pela água é uma opção autorizada para poedeiras em alguns mercados; seu uso no Brasil deve obedecer ao registro, à bula, à categoria produtiva e aos períodos de carência vigentes. Produtos improvisados ou proibidos em aves de produção criam risco de resíduos em ovos e carne.
Ovos do ácaro e indivíduos escondidos podem escapar de uma aplicação. Por isso, momento, cobertura, repetição prevista em bula e monitoramento determinam o resultado. Falhas exigem revisar identificação, acesso às frestas, dose, resistência e reinfestação, em vez de simplesmente aumentar a frequência de aplicação.
Prevenção e Controle
O manejo integrado combina limpeza mecânica, remoção de matéria orgânica, vedação de frestas, desenho sanitário de ninhos e poleiros, monitoramento por armadilhas e tratamento dirigido. Durante o vazio sanitário, equipamentos desmontáveis devem ser limpos e os abrigos tratados. Caixas, bandejas e aves de reposição precisam ser inspecionadas antes de entrar.
Calor controlado, pós inertes, fungos entomopatogênicos e ácaros predadores são estudados ou usados em determinados sistemas, com eficácia dependente de produto e ambiente. O rodízio responsável de princípios ativos pode retardar resistência. Ninhos de pombos e outras aves próximos às instalações devem ser manejados de forma sanitária e legal para reduzir reintrodução.
Estudos Recentes
Pesquisas recentes priorizam controle não químico, formulações vegetais, materiais inertes, fungos entomopatogênicos, predadores e antígenos candidatos a vacina. No Brasil, um estudo de 2025 avaliou extratos vegetais em granjas de postura, refletindo a busca por opções com menor risco de resíduos e melhor integração ao manejo.
Genômica e transcriptômica ajudam a localizar alvos ligados à digestão do sangue, reprodução e resistência. Sensores e armadilhas padronizadas também permitem intervir antes que a infestação se torne visível. Nenhuma tecnologia isolada resolve todos os focos; a tendência é combinar monitoramento, saneamento e métodos compatíveis com o sistema produtivo.
Curiosidades
- Fato Interessante: o ácaro pode completar o ciclo em cerca de uma semana sob condições favoráveis, mas passa a maior parte desse tempo fora da ave, escondido no galpão.
Referências
- Merck Veterinary Manual – Mites of Poultry
- NCBI Taxonomy – Dermanyssus gallinae (Taxonomy ID 34641)
- Brazilian Journal of Poultry Science – Natural Plant Extracts Control Red Mite on Laying Hen Farms
- Biotemas – Fauna de ácaros associada a poedeiras e ninhos de aves no Vale do Taquari
- Animals – Challenges of Dermanyssus gallinae in Poultry
- Frontiers in Veterinary Science – Advances in Non-Chemical Tools to Control Poultry Hematophagous Mites





