Importância
Ancylostoma caninum e Ancylostoma braziliense são nematóides hematófagos do intestino delgado de cães e gatos, com ampla distribuição em regiões tropicais e subtropicais, incluindo todo o território brasileiro. A. caninum, o mais patogênico dos dois, é a principal causa de anemia hemolítica-hemorrágica em filhotes de cães, podendo levar à morte em infecções maciças não tratadas. A. braziliense, embora menos hematófago, tem grande relevância clínica e zoonótica pela sua associação com a larva migrans cutânea em humanos.
Do ponto de vista de saúde pública, esse gênero representa uma das zoonoses parasitárias mais comuns em regiões litorâneas e tropicais do Brasil, onde a contaminação de areia de praias e parques por larvas infectantes é generalizada. A combinação de alta patogenicidade em animais jovens com relevância zoonótica direta torna o diagnóstico e controle da ancilostomose uma prioridade tanto na clínica veterinária quanto na saúde pública brasileira.
História e Descoberta
- Descobridor: Ancylostoma caninum foi descrito por Ercolani em 1859; Ancylostoma braziliense foi descrito por Gomes de Faria em 1910, a partir de espécimes obtidos no Brasil — um dos poucos parasitas de importância veterinária com descrição original brasileira.
A história de Ancylostoma spp. está intimamente ligada ao desenvolvimento da helmintologia médica e veterinária no final do século XIX e início do século XX, período em que a ancilostomose humana — causada por espécies relacionadas do gênero — era reconhecida como grave problema de saúde pública em regiões tropicais, associada à “amarelão” e à anemia crônica em populações rurais. O reconhecimento da penetração cutânea como via de infecção, demonstrado experimentalmente por Looss no início do século XX, foi um marco que uniu a compreensão da ancilostomose humana e veterinária, revelando o compartilhamento de mecanismos patogênicos entre as espécies do gênero. A descrição de A. braziliense por Gomes de Faria, parasitologista brasileiro, é um marco histórico da parasitologia nacional e reflete o pioneirismo do país nos estudos sobre helmintos de cães e gatos e sua relação com a saúde humana, particularmente com a síndrome de larva migrans cutânea, amplamente descrita em populações costeiras brasileiras ao longo do século XX.
Classificação Taxonômica de Ancylostoma caninum / Ancylostoma braziliense
- Reino: Animalia
- Filo: Nematoda
- Classe: Chromadorea
- Ordem: Rhabditida
- Família: Ancylostomatidae
- Gênero: Ancylostoma
- Espécies: A. caninum (cães), A. braziliense (cães e gatos)
Morfologia
Ancylostoma caninum é um nematóide de porte médio, com machos medindo 10 a 12 mm e fêmeas 14 a 21 mm. A. braziliense é menor, com machos de 5 a 8 mm e fêmeas de 6,5 a 10 mm. A característica morfológica mais marcante do gênero é a cápsula bucal bem desenvolvida, armada com dentes ventrais curvos — três pares em A. caninum e dois pares em A. braziliense — estrutura fundamental para fixação à mucosa intestinal e para a hematofagia.
O corpo apresenta curvatura característica na região anterior, o que confere ao gênero o nome comum “ancilóstomo” (do grego “boca curva”). A bolsa copulatória do macho é bem desenvolvida, trilobada, com raios característicos para cada espécie — estrutura utilizada para diferenciação específica em exames de necropsia. Os ovos são elipsoides, de casca fina e transparente, com mórula em segmentação, medindo aproximadamente 60 x 40 µm, morfologicamente semelhantes entre as duas espécies e indistinguíveis por exame direto sem coprocultura.
Epidemiologia de Ancylostoma caninum / Ancylostoma braziliense
Ancylostoma spp. tem ampla distribuição em regiões tropicais e subtropicais, com prevalência elevada em cães e gatos no Brasil, especialmente em áreas litorâneas de clima quente e úmido, condições ideais para o desenvolvimento e sobrevivência das larvas infectantes no solo e na areia. A. caninum predomina em cães, enquanto A. braziliense infecta tanto cães quanto gatos, com maior prevalência em regiões costeiras do Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.
O ciclo de vida é direto, com duas vias principais de infecção: penetração cutânea ativa de larvas L3 infectantes presentes no solo (mais comum) e ingestão de larvas ou de hospedeiros paratênicos. Em A. caninum, a transmissão transmamária é uma via adicional importante, com larvas encistadas em tecidos maternos reativando-se durante a lactação e infectando os filhotes através do colostro e leite — mecanismo responsável pela alta prevalência e gravidade da infecção em neonatos. Após a penetração cutânea, as larvas migram via corrente sanguínea e pulmões antes de atingir o intestino delgado, onde se fixam e amadurecem, com período pré-patente de 2 a 3 semanas. Larvas de A. braziliense frequentemente não completam a migração sistêmica em hospedeiros não naturais (incluindo humanos), permanecendo confinadas à pele — mecanismo central da larva migrans cutânea.
Patogenia
A patogenia de Ancylostoma spp. é dominada pela hematofagia ativa exercida pelos vermes adultos fixados à mucosa intestinal por meio da cápsula bucal armada de dentes. Cada verme adulto de A. caninum pode causar perda sanguínea diária significativa, tanto pela sucção direta quanto pelo sangramento persistente nos locais de fixação após a migração do parasita para novos pontos da mucosa — comportamento que amplifica a perda hemática além do volume efetivamente ingerido pelo parasita.
Em infecções maciças, especialmente em filhotes com carga parasitária elevada adquirida por via transmamária, a perda sanguínea pode ser catastrófica, levando a anemia hemolítica-hemorrágica aguda, hipoproteinemia grave e choque hipovolêmico, com risco de morte em poucos dias sem tratamento e suporte adequados. A migração larval pela pele (fase de penetração cutânea) causa dermatite localizada com prurido; a migração pulmonar pode causar tosse e sinais respiratórios leves a moderados. Em infecções crônicas de baixa intensidade, a patogenia se manifesta como anemia ferropriva progressiva e hipoalbuminemia, com impacto no desenvolvimento e desempenho do animal.
Sinais Clínicos
Em filhotes (forma mais grave, especialmente por transmissão transmamária): Anemia aguda grave, mucosas pálidas, letargia, fraqueza, diarreia com sangue digerido (melena) ou fresco, desidratação. Em casos fulminantes, morte súbita por choque hipovolêmico nas primeiras semanas de vida, antes mesmo da eliminação de ovos detectável ao exame de fezes.
Em cães e gatos adultos: Anemia crônica de intensidade variável conforme a carga parasitária, fraqueza, pelagem opaca, diarreia intermitente com muco e sangue oculto. Muitas infecções em adultos são subclínicas devido à imunidade parcial adquirida.
Dermatite por penetração larval: Prurido e eritema localizados nos pontos de penetração cutânea das larvas (especialmente patas), mais evidente em animais com exposição repetida a solo contaminado.
Em humanos (larva migrans cutânea, principalmente por A. braziliense): Lesões cutâneas serpiginosas, eritematosas e extremamente pruriginosas, que avançam progressivamente na pele conforme a migração da larva, comumente em pés e pernas após contato com areia contaminada.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: O exame coproparasitológico por flutuação (Willis) ou McMaster é o método padrão para detecção de ovos, com boa sensibilidade em infecções patentes. Em filhotes com anemia aguda grave por transmissão transmamária, o exame de fezes pode ser negativo devido ao curto período desde a infecção (período pré-patente), tornando o diagnóstico clínico baseado em sinais e histórico essencial nesses casos. O hematócrito é fundamental para avaliação da gravidade da anemia.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: A qPCR a partir de amostras fecais permite diferenciação específica entre A. caninum e A. braziliense, relevante para avaliação de risco zoonótico e para diagnóstico em fases pré-patentes com maior sensibilidade que o exame direto.
- Indicação de Teste: O exame coproparasitológico é indicado rotineiramente em filhotes e em animais com sinais de anemia ou diarreia. Em filhotes com anemia aguda e história de nascimento recente, o diagnóstico deve ser considerado mesmo com exame de fezes negativo, dado o risco de infecção transmamária pré-patente. A qPCR é útil para diferenciação específica em casos de suspeita de larva migrans cutânea em membros da família do animal.
Tratamento
O tratamento da ancilostomose deve associar a vermifugação à correção da anemia em casos graves:
- Pamoato de pirantel: fármaco de escolha em filhotes, com boa margem de segurança e eficácia elevada contra formas adultas.
- Fenbendazol: eficaz contra adultos e formas larvais em desenvolvimento; frequentemente utilizado em fêmeas gestantes para reduzir a transmissão transmamária.
- Milbemicina oxima, moxidectina: lactonas macrocíclicas com boa eficácia, disponíveis em formulações combinadas de amplo espectro.
- Suporte clínico em anemia grave: transfusão sanguínea é frequentemente necessária em filhotes com anemia aguda intensa antes ou concomitantemente à vermifugação, dado o risco de morte por choque hipovolêmico. Suplementação de ferro e dieta de suporte são medidas complementares importantes na recuperação.
Prevenção e Controle
Medidas sanitárias: A remoção regular de fezes de ambientes domésticos e públicos, especialmente em áreas de solo arenoso e úmido (parques, praias, quintais), reduz a contaminação por larvas infectantes. Evitar contato direto com solo potencialmente contaminado — uso de calçados em praias e áreas de risco — é medida preventiva direta contra a larva migrans cutânea em humanos.
Manejo de hospedeiros: A vermifugação estratégica de fêmeas gestantes é a medida mais eficaz para reduzir a transmissão transmamária a filhotes, dado o alto risco de infecção grave nessa via. Protocolos de vermifugação sistemática de filhotes a partir de 2 semanas de idade, repetidos periodicamente até 6 meses, são essenciais para o controle populacional. A vermifugação regular de animais adultos reduz a contaminação ambiental por ovos e larvas.
Estudos Recentes
As pesquisas recentes sobre Ancylostoma spp. têm avançado significativamente no campo da resistência anti-helmíntica, especialmente em relação a benzimidazóis e macrocíclicos lactônicos, com relatos crescentes de populações de A. caninum resistentes em algumas regiões, o que motiva o desenvolvimento de marcadores moleculares de resistência para monitoramento em rotina clínica. Outra frente ativa envolve estudos epidemiológicos de contaminação de solos por larvas infectantes de Ancylostoma em áreas urbanas e litorâneas brasileiras, com o objetivo de mapear áreas de maior risco para a larva migrans cutânea e orientar políticas públicas de controle de animais errantes e saneamento ambiental. Pesquisas sobre os mecanismos moleculares da hematofagia — incluindo as proteínas anticoagulantes secretadas pelo parasita — também têm avançado, com potencial aplicação em terapias antiparasitárias mais específicas.
Curiosidades
- Fato Interessante: As proteínas anticoagulantes secretadas por Ancylostoma caninum durante a hematofagia são tão potentes e específicas que uma delas — o fator anticoagulante do ancilóstomo (AcAP5) — foi estudada como base para o desenvolvimento de fármacos anticoagulantes experimentais em medicina humana, demonstrando como a bioquímica de parasitas hematófagos pode inspirar avanços terapêuticos em áreas completamente distintas da parasitologia.
Referências
- CAPC – Hookworms
- CDC – Cutaneous Larva Migrans
- CFSPH Iowa State University – Ancylostomiasis





