Importância
O gênero Theileria reúne protozoários transmitidos principalmente por carrapatos e capazes de infectar bovinos, pequenos ruminantes e equídeos. A importância clínica varia muito entre espécies: T. parva e T. annulata podem causar teilerioses bovinas graves em regiões onde seus vetores ocorrem, enquanto T. equi é um dos agentes da piroplasmose equina, relevante para o bem-estar, o desempenho e a movimentação de animais.
No Brasil, a atenção prática recai sobretudo sobre a piroplasmose equina por T. equi. Encontrar DNA de outras espécies ou genótipos de Theileria em um local não demonstra, por si, que ali ocorra a mesma síndrome observada em bovinos da África ou da Ásia. A identificação da espécie, o contexto epidemiológico e a avaliação clínica são indispensáveis antes de atribuir doença ao agente.
História e Descoberta
- Descobridor: Bettencourt, França e Borges estabeleceram o gênero Theileria em 1907, ao distinguir piroplasmas com desenvolvimento em células sanguíneas de formas antes reunidas em outros gêneros.
O nome do gênero homenageia Arnold Theiler, cujos estudos no início do século XX ajudaram a esclarecer a febre da costa leste em bovinos africanos. Naquela época, surtos com febre, aumento de linfonodos e alta mortalidade estimularam a busca pelo agente e pelo papel dos carrapatos na transmissão. O reconhecimento de estágios do protozoário em leucócitos e eritrócitos diferenciou as teilerioses de outras hemoparasitoses. Mais tarde, a microscopia de esfregaços, a sorologia e os estudos do ciclo no vetor ampliaram a vigilância. A PCR e o sequenciamento passaram a separar espécies e genótipos morfologicamente semelhantes, inclusive T. equi, anteriormente classificada como Babesia equi. Essa trajetória explica por que o diagnóstico atual depende tanto do animal e da região quanto da identificação laboratorial do parasita.
Classificação Taxonômica de Theileria spp.
- Domínio: Eukaryota
- Reino: Protista (designação tradicional)
- Filo: Apicomplexa
- Classe: Aconoidasida
- Ordem: Piroplasmida
- Família: Theileriidae
- Gênero: Theileria
A classificação moderna também posiciona o gênero no clado Alveolata. Entre as espécies de interesse veterinário estão T. equi em equídeos, T. parva e T. annulata em bovinos e T. lestoquardi em pequenos ruminantes.
Morfologia
As formas vistas em esfregaços sanguíneos são piroplasmas pequenos, geralmente ovais, arredondados ou piriformes, dentro de eritrócitos. Em T. equi, medem menos de aproximadamente 2–3 µm; ocasionalmente quatro formas piriformes compõem uma tétrade conhecida como “cruz de Malta”. O achado é sugestivo, mas sua ausência não exclui infecção, sobretudo em portadores com baixa parasitemia.
Em T. parva e T. annulata, a multiplicação em leucócitos produz esquizontes que podem ser observados em aspirados de linfonodo corados por Giemsa. As formas eritrocitárias dessas duas espécies se parecem entre si, de modo que a morfologia isolada não assegura a identificação específica. No carrapato ocorrem estágios do ciclo que não são identificados pelo exame rotineiro de sangue do hospedeiro.
Epidemiologia de Theileria spp.
As espécies de Theileria têm distribuição ligada à presença de carrapatos competentes e de hospedeiros suscetíveis. Bovinos e búfalos são hospedeiros de diferentes espécies; ovinos e caprinos abrigam outras, e equinos, asininos e muares são os principais hospedeiros de T. equi. Não há hospedeiro intermediário no sentido usado para helmintos: o carrapato é o vetor biológico no qual parte do ciclo do protozoário se completa.
Durante o repasto, o carrapato infectado inocula esporozoítos. No vertebrado, o parasita passa por estágios celulares e alcança os eritrócitos; outro carrapato pode ingerir essas formas e manter a transmissão entre estágios de desenvolvimento. Para T. equi, a transmissão também pode ocorrer por instrumentos contaminados com sangue, e há registros de transmissão vertical. Equídeos infectados podem permanecer portadores por períodos prolongados. A presença de carrapatos, o trânsito de animais sem triagem e o compartilhamento de agulhas elevam o risco.
Na América do Sul, T. equi está documentada em equinos. Um estudo com 45 cavalos sintomáticos na região metropolitana do Rio de Janeiro identificou DNA de T. equi em 35,5% dos animais avaliados; a amostra clínica não representa a prevalência de todos os cavalos da região. Outra investigação no Distrito Federal encontrou diferentes genótipos em cavalos amostrados. A detecção molecular de T. orientalis em búfalos no Pará amplia o conhecimento regional, mas não autoriza presumir ocorrência de teileriose bovina grave por T. parva ou T. annulata no Brasil. Essas duas síndromes são particularmente importantes em outras regiões do mundo.
Patogenia
O mecanismo de dano depende da espécie. Em infecções bovinas por T. parva ou T. annulata, a expansão de leucócitos parasitados compromete tecidos linfóides e desencadeia inflamação sistêmica, febre e lesões orgânicas. A etapa eritrocitária pode contribuir para anemia. Em outras espécies, o predomínio da infecção eritrocitária torna a anemia e a resposta inflamatória manifestações mais relevantes.
Na piroplasmose equina por T. equi, a destruição de eritrócitos e a resposta do hospedeiro podem resultar em anemia, icterícia e perda de desempenho. A gravidade varia com idade, imunidade, carga parasitária e infecções concomitantes. Portadores aparentemente sadios continuam importantes para a vigilância, pois podem manter o agente e gerar resultados positivos em testes moleculares ou sorológicos.
Sinais Clínicos
Em equídeos: a infecção por T. equi pode ser subclínica. Nos quadros agudos, podem ocorrer febre, apatia, anorexia, mucosas pálidas ou ictéricas, taquicardia e anemia; casos graves exigem atendimento rápido. Na forma crônica, perda de condição corporal e queda de desempenho são inespecíficas e requerem diagnóstico diferencial com outras hemoparasitoses e causas de anemia.
Em bovinos: onde T. parva e T. annulata circulam, são descritos febre, linfonodos aumentados, lacrimejamento, secreção nasal, rápida perda de condição e, nos quadros avançados, comprometimento respiratório e morte. Esses sinais não devem ser transferidos automaticamente para toda detecção de Theileria em bovinos brasileiros.
Em ovinos e caprinos: algumas espécies, como T. lestoquardi, podem causar febre, anemia e doença grave nas áreas em que ocorrem. A espécie envolvida deve ser confirmada antes de generalizar prognóstico ou escolher medidas sanitárias.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: Esfregaço de sangue periférico corado por Giemsa pode revelar piroplasmas, sobretudo na fase aguda. Em bovinos com suspeita de teileriose linfoproliferativa, o aspirado de linfonodo permite pesquisar esquizontes. Hemograma, avaliação de mucosas e histórico de carrapatos ajudam a interpretar o quadro, mas não identificam a espécie. Esfregaço negativo não exclui portadores de baixa parasitemia.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: PCR ou qPCR em sangue total com anticoagulante detecta DNA do agente e, com alvos específicos ou sequenciamento, diferencia espécies e genótipos. Em bovinos com linfonodos aumentados, aspirado pode ser usado conforme o ensaio. Sorologia, como cELISA ou imunofluorescência validada, demonstra exposição e apoia triagem de equídeos, mas anticorpos não equivalem necessariamente a doença ativa. A escolha do teste deve seguir o propósito clínico ou sanitário e a espécie animal.
- Indicação de Teste: Investigar equídeos com febre, anemia, icterícia, queda de desempenho ou exposição a carrapatos; testar também animais em movimentação quando exigido pelas regras sanitárias aplicáveis. Em suspeita de infecção persistente, associar método molecular e sorológico conforme orientação veterinária. Para bovinos ou pequenos ruminantes, solicitar identificação específica quando a clínica e a origem do animal justificarem suspeita de teileriose, evitando interpretar um resultado genérico de Theileria como prova de uma espécie altamente patogênica. O guia de hemoparasitas de animais de produção reúne diagnósticos diferenciais relevantes.
Tratamento
O tratamento exige definir a espécie hospedeira, o quadro clínico e o agente. Em bovinos com teileriose por espécies patogênicas, a buparvaquona é a opção descrita em regiões endêmicas; seu resultado é melhor quando a doença é reconhecida cedo. A disponibilidade, a indicação legal no Brasil e os períodos de carência devem ser verificados antes de qualquer uso em animais de produção. Resistência à buparvaquona já foi relatada para T. annulata.
Na piroplasmose equina por T. equi, o dipropionato de imidocarbe pode ser considerado pelo médico-veterinário, acompanhado de suporte clínico quando necessário. O fármaco pode causar reações adversas e não garante eliminação do estado de portador em todos os animais ou genótipos. A resposta deve ser acompanhada clinicamente e, quando apropriado, com testes subsequentes. Não se deve aplicar o mesmo esquema de tratamento a todas as espécies do gênero.
Prevenção e Controle
O controle de carrapatos deve combinar inspeção dos animais, manejo ambiental e acaricidas indicados para a espécie e para a realidade local. A frequência de aplicação depende da pressão de infestação e da orientação técnica; a simples presença de DNA do protozoário em um carrapato não comprova sua competência como vetor. Em propriedades com trânsito de equídeos, a triagem na entrada e o registro do histórico sanitário reduzem a chance de introduzir portadores.
Agulhas, seringas e instrumentos com contato sanguíneo não devem ser compartilhados sem esterilização adequada. Equídeos positivos precisam de avaliação individual e de medidas compatíveis com as exigências de movimentação. Vacinas e métodos de imunização usados contra teilerioses bovinas em certas regiões não constituem uma recomendação geral para o Brasil nem substituem o diagnóstico específico. Para a investigação laboratorial, o artigo sobre diagnóstico molecular em parasitologia veterinária explica o papel complementar da PCR.
Estudos Recentes
Pesquisas brasileiras recentes mostram a utilidade da genotipagem para entender a diversidade de T. equi. Amostras de cavalos de diferentes regiões do país revelaram linhagens distintas por análise do gene hsp70, enquanto estudos regionais identificaram genótipos em populações amostradas. Esses resultados melhoram a vigilância, mas não substituem a correlação entre teste, sinais clínicos e histórico epidemiológico.
Outra frente investiga espécies próximas, incluindo T. haneyi, e a eficácia variável do imidocarbe em infecções simples ou mistas. Para bovinos, o monitoramento molecular de espécies menos conhecidas ajuda a mapear circulação sem confundi-la com surtos das teilerioses mais graves. A interpretação de novos achados depende de confirmação genética, avaliação clínica e estudo dos possíveis vetores.
Curiosidades
- Fato Interessante: quatro formas de T. equi podem aparecer organizadas em uma “cruz de Malta” dentro de uma única hemácia; é um achado clássico, porém incomum o bastante para que sua ausência não descarte piroplasmose equina.
Referências
- WOAH – Equine piroplasmosis
- WOAH – Código Terrestre: infecção por Theileria equi e Babesia caballi
- Merck Veterinary Manual – Theileriosis in Animals
- NCBI Taxonomy – Theileria (Taxonomy ID 5873)
- Albuquerque e colaboradores – T. equi em cavalos sintomáticos da região metropolitana do Rio de Janeiro
- Estudo no Distrito Federal – Diversidade genética de T. equi e B. caballi em cavalos de tração
- Pesquisa molecular brasileira – Diversidade de T. equi pelo gene hsp70
- Pesquisa no Pará – Genótipos de T. orientalis em búfalos da Amazônia brasileira
- Estudo experimental – Resposta de T. equi e T. haneyi ao imidocarbe





