Importância
Anaplasma marginale é uma riquétsia intracelular obrigatória que parasita eritrócitos de bovinos, causando a anaplasmose bovina — uma das doenças parasitárias de maior impacto econômico na pecuária de corte e leite do Brasil e da América do Sul. Transmitida principalmente pelo carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus, a parasitose é endêmica em praticamente todo o território brasileiro e em grande parte da América Latina tropical e subtropical.
A doença causa anemia hemolítica progressiva, podendo levar à morte em bovinos adultos sem tratamento oportuno. Em regiões endêmicas, animais jovens expostos naturalmente desenvolvem imunidade parcial e tornam-se portadores assintomáticos — reservatório permanente do agente no rebanho. A introdução de animais de raças europeias susceptíveis em áreas endêmicas, a translocação de gado entre regiões e a ampliação das áreas de distribuição do vetor são fatores que ampliam o impacto da anaplasmose no contexto atual da pecuária brasileira.
História e Descoberta
- Descobridor: Sir Arnold Theiler, bacteriologista sul-africano, descreveu Anaplasma marginale em 1910, a partir de eritrócitos de bovinos com anemia grave na África do Sul, identificando os corpúsculos marginais característicos que deram nome ao agente.
A história da anaplasmose bovina confunde-se com a própria história da hemoparasitologia veterinária. No final do século XIX e início do século XX, surtos de anemia grave em bovinos em regiões tropicais e subtropicais da África, Américas e Austrália eram frequentemente confundidos com babesiose — ambas transmitidas pelo carrapato e causando quadros clínicos similares. Theiler foi o primeiro a distinguir morfologicamente o agente da anaplasmose, descrevendo os corpúsculos marginais nos eritrócitos como diferentes dos piroplasmas da babesiose. A natureza riquetsial do agente, no entanto, só seria confirmada décadas depois, com o desenvolvimento da microscopia eletrônica. No Brasil, os primeiros relatos documentados de anaplasmose bovina datam da primeira metade do século XX, e a parasitose foi progressivamente reconhecida como endêmica em todas as regiões pecuárias do país, especialmente após a expansão da fronteira agropecuária para o Centro-Oeste e Norte.
Classificação Taxonômica de Anaplasma marginale
- Reino: Bacteria
- Filo: Proteobacteria
- Classe: Alphaproteobacteria
- Ordem: Rickettsiales
- Família: Anaplasmataceae
- Gênero: Anaplasma
- Espécie: A. marginale
Morfologia
Anaplasma marginale é uma bactéria intracelular obrigatória que se apresenta como corpúsculos densos, esféricos a elipsoides, com diâmetro de 0,3 a 1,0 µm, visíveis ao microscópio óptico como inclusões densas na periferia dos eritrócitos bovinos — característica que deu origem ao epíteto marginale. Cada corpúsculo, denominado corpúsculo inicial ou corpo de inclusão, é composto por colônias de organismos individuais (merozoítos) envoltos por uma membrana derivada do eritrócito.
Ao contrário de Babesia e Theileria, A. marginale não destrói diretamente o eritrócito por dentro — o mecanismo de hemólise é predominantemente imunomediado, desencadeado pela resposta do hospedeiro às células parasitadas. Os corpúsculos são visíveis em esfregaços sanguíneos corados por Giemsa como pontos escuros na margem dos eritrócitos, frequentemente múltiplos por célula em infecções intensas. A ultraestrutura revela que os corpúsculos iniciais são vacúolos membranosos contendo de 4 a 8 organismos individuais.
Epidemiologia de Anaplasma marginale
Anaplasma marginale tem distribuição mundial nas regiões tropicais e subtropicais, coincidindo com a distribuição do principal vetor, o carrapato Rhipicephalus microplus. No Brasil, a parasitose é endêmica em praticamente todos os estados, com maior prevalência nas regiões Centro-Oeste, Norte, Nordeste e Sudeste — áreas de maior densidade de carrapatos e de bovinos susceptíveis.
A transmissão ocorre principalmente por carrapatos da família Ixodidae, com R. microplus sendo o vetor de maior importância no Brasil. A transmissão é transovariana no carrapato (passagem da fêmea para os ovos) e transestadial (de uma fase para outra do ciclo do carrapato). Além da transmissão por carrapatos, A. marginale pode ser transmitida mecanicamente por insetos hematófagos (tabanídeos, moscas, mosquitos) e iatrogenicamente por agulhas, instrumentos de descorna, tatuagem e transfusão sanguínea — fator de risco particularmente relevante em manejos intensivos. Bovinos recuperados permanecem portadores persistentes e assintomáticos, servindo como reservatório permanente no rebanho. A zona de endemia estável — onde a exposição precoce de bezerros garante imunidade antes da fase adulta — contrasta com a zona de instabilidade endêmica, onde surtos em adultos susceptíveis são mais frequentes e graves.
Patogenia
A patogenia da anaplasmose bovina é dominada pela anemia hemolítica progressiva de natureza predominantemente imunomediada. Após a infecção, A. marginale parasita os eritrócitos e modifica a superfície dessas células, tornando-as alvo do sistema imune do hospedeiro. A destruição eritrocitária ocorre principalmente por eritrofagocitose no baço, fígado e pulmões — e não por lise intravascular direta, como ocorre na babesiose aguda.
A parasitemia pode atingir 70% dos eritrócitos em infecções não tratadas de bovinos adultos susceptíveis, levando a anemia grave, hipóxia tecidual e insuficiência orgânica múltipla. A icterícia é frequente, resultante da hemólise extravascular e do acúmulo de bilirrubina. O baço torna-se marcadamente aumentado (esplenomegalia), reflexo da intensa eritrofagocitose. Em fêmeas gestantes, a anaplasmose pode causar aborto. A fase aguda, se não tratada, pode evoluir para morte em 24 a 72 horas nos casos mais graves; animais que se recuperam permanecem portadores crônicos com baixos níveis de parasitemia indetectáveis pelo esfregaço convencional.
Sinais Clínicos
Em bovinos adultos susceptíveis (forma aguda): Febre súbita (40–41°C), anorexia, queda abrupta da produção leiteira, taquicardia e taquipneia, mucosas pálidas a ictéricas progressivamente, fraqueza muscular intensa, ataxia e decúbito nos casos graves. A hemoglobinúria — comum na babesiose — é rara na anaplasmose, pois a hemólise é extravascular. Aborto pode ocorrer em vacas gestantes. A mortalidade em adultos não tratados pode ser superior a 50%.
Em bovinos jovens (até 12 meses) em áreas endêmicas: Infecção geralmente subclínica ou com anemia leve e transitória. A exposição precoce confere imunidade que protege o animal na fase adulta — base do conceito de estabilidade enzoótica.
Em portadores crônicos: Assintomáticos, com baixa parasitemia persistente detectável apenas por PCR. Representam o principal reservatório do agente no rebanho.
Diagnóstico
- Métodos Tradicionais: O esfregaço sanguíneo corado por Giemsa é o método de triagem mais acessível — permite visualização dos corpúsculos marginais nos eritrócitos durante a fase aguda, quando a parasitemia é alta. O hematócrito revela anemia normocítica normocrômica progressiva. A sorologia por ELISA de competição (cELISA) é o método mais utilizado para diagnóstico de portadores e levantamentos soroepidemiológicos, com alta sensibilidade e especificidade.
- Métodos Moleculares/Sorológicos: A PCR convencional e a qPCR são os métodos de eleição para detecção de portadores crônicos e para diagnóstico em fases iniciais da infecção, antes do pico de parasitemia. A qPCR direcionada ao gene msp5 ou ao gene 16S rRNA de A. marginale apresenta sensibilidade muito superior ao esfregaço em animais com baixa parasitemia. O sequenciamento de genes como msp1α permite genotipagem de isolados para estudos epidemiológicos moleculares.
- Indicação de Teste: O diagnóstico por esfregaço é indicado em bovinos com sinais clínicos de anemia aguda em áreas endêmicas. O cELISA é recomendado para rastreamento de portadores em rebanhos, especialmente antes de translocação de animais entre propriedades ou estados. A qPCR está indicada para confirmação de casos duvidosos, diagnóstico diferencial com babesiose e detecção de portadores em rebanhos com história de anaplasmose.
Tratamento
- Tetraciclinas (oxitetraciclina, doxiciclina): fármacos de escolha para o tratamento da anaplasmose bovina. A oxitetraciclina de longa ação em dose única é amplamente utilizada na prática de campo; o tratamento precoce é determinante para o prognóstico.
- Imidocarb diproprionato: antiprotozoário com atividade contra A. marginale; utilizado como alternativa às tetraciclinas e como quimioprofilaxia em animais de alto risco. Possui período de carência longo para leite e carne.
- Suporte clínico: transfusão sanguínea em casos de anemia grave (hematócrito < 12–15%), fluidoterapia, anti-inflamatórios e vitamina B12 são medidas de suporte importantes nos casos mais críticos.
Prevenção e Controle
Controle do vetor: O controle estratégico do carrapato R. microplus — com acaricidas, rotação de princípios ativos e manejo de pastagens — é a medida mais eficaz para reduzir a pressão de transmissão. O monitoramento da resistência a acaricidas é indispensável dado o cenário atual de resistência múltipla documentada no Brasil.
Manejo de hospedeiros: A manutenção da estabilidade enzoótica — exposição controlada de bezerros ao agente em áreas endêmicas para desenvolvimento de imunidade natural — é preferível à erradicação em regiões de alta prevalência. A vacinação com vacinas vivas atenuadas (A. centrale) ou com vacinas mortas está disponível em alguns países, mas não no Brasil. A quarentena e o teste sorológico (cELISA) ou molecular (qPCR) de animais introduzidos no rebanho são medidas fundamentais para evitar a introdução de novos genótipos ou de animais portadores em rebanhos livres.
Estudos Recentes
As pesquisas recentes sobre Anaplasma marginale têm avançado em três frentes principais. A primeira é o desenvolvimento de vacinas recombinantes baseadas nas proteínas de superfície MSP1, MSP2 e MSP5, que representam alternativas mais seguras e reprodutíveis às vacinas vivas atenuadas. A segunda é a epidemiologia molecular de populações brasileiras, com estudos de genotipagem por sequenciamento do gene msp1α revelando alta diversidade de genótipos circulantes no país e padrões de distribuição regional distintos. A terceira frente é o desenvolvimento e validação de testes de qPCR multiplex que permitem diagnóstico simultâneo de A. marginale, Babesia bovis e B. bigemina em uma única reação, otimizando o diagnóstico do complexo de hemoparasitas bovinos transmitidos por carrapatos.
Curiosidades
- Fato Interessante: Anaplasma marginale possui um dos maiores genomas anotados entre as riquétsias — cerca de 1,2 Mb — e codifica uma família de proteínas de superfície (MSP2) que sofre variação antigênica contínua durante a infecção crônica, “trocando” sua identidade molecular para escapar do sistema imune do hospedeiro. Esse mecanismo de variação antigênica é tão sofisticado que um único bovino portador pode abrigar dezenas de variantes antigênicas diferentes simultaneamente — o que torna o desenvolvimento de vacinas de ampla proteção um dos grandes desafios da parasitologia veterinária molecular.
Referências
- OIE/WOAH – Anaplasmosis (Bovine)
- CFSPH Iowa State University – Anaplasmosis
- CDC – Anaplasmosis





