Trichostrongylus spp. – Dossiê do Parasita

Trichostrongylus spp. - Dossiê do Parasita

Importância

Trichostrongylus spp. é um gênero de nematóides gastrointestinais de ampla distribuição mundial, com relevância veterinária expressiva em bovinos, ovinos, caprinos e, em menor grau, equinos e coelhos. No Brasil, suas espécies integram o complexo de tricostrongilídeos que parasitam o intestino delgado e o abomaso de ruminantes, frequentemente em associação com Haemonchus contortus e Ostertagia ostertagi, tornando o diagnóstico diferencial por espécie dependente de métodos moleculares ou coproculturas especializadas.

O impacto econômico do gênero decorre principalmente da forma subclínica da parasitose, que compromete a conversão alimentar, reduz o ganho de peso e a produção leiteira sem gerar sinais clínicos evidentes. Em pequenos ruminantes do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros, onde o manejo extensivo é predominante e as condições climáticas favorecem a sobrevivência larval, Trichostrongylus spp. contribui significativamente para as perdas produtivas associadas ao parasitismo gastrintestinal.


História e Descoberta

  • Descobridor: O gênero Trichostrongylus foi estabelecido por Looss em 1905, consolidando espécies que haviam sido descritas isoladamente por diferentes autores ao longo do século XIX sob outros gêneros, especialmente Strongylus.

A história do gênero Trichostrongylus reflete a complexidade taxonômica dos nematóides tricostrongilídeos, cujas espécies são morfologicamente muito semelhantes entre si e com outros gêneros relacionados. No século XIX, várias espécies hoje classificadas em Trichostrongylus foram descritas como Strongylus ou Haemonchus, e sua reclassificação dependeu do desenvolvimento de técnicas microscópicas mais refinadas para análise de estruturas como espículos e bolsa copulatória. A importância clínica do gênero só foi plenamente reconhecida no século XX, quando estudos em rebanhos ovinos europeus e australianos demonstraram que infecções mistas por múltiplos tricostrongilídeos — incluindo Trichostrongylus — eram responsáveis por perdas produtivas substanciais mesmo na ausência de sinais clínicos evidentes. No Brasil, levantamentos epidemiológicos a partir da segunda metade do século XX documentaram a presença de múltiplas espécies do gênero em ruminantes de todas as regiões, consolidando sua importância no contexto da parasitologia de ruminantes tropical.


Classificação Taxonômica de Trichostrongylus spp.

  • Reino: Animalia
  • Filo: Nematoda
  • Classe: Chromadorea
  • Ordem: Rhabditida
  • Família: Trichostrongylidae
  • Gênero: Trichostrongylus
  • Espécies principais: T. axei, T. colubriformis, T. vitrinus, T. capricola, T. longispicularis

Morfologia

Trichostrongylus spp. são nematóides de pequeno porte, entre os menores do grupo dos tricostrongilídeos. Os machos medem 4 a 7 mm e as fêmeas 5 a 8 mm de comprimento. O corpo é filiforme, delgado e de coloração avermelhada a acastanhada, sem estriações transversais marcantes. A extremidade anterior é afilada, sem cápsula bucal desenvolvida — diferentemente de Haemonchus, que possui dente lancetado para hematofagia.

A bolsa copulatória do macho é bem desenvolvida, com espículos curtos, robustos e característicos de cada espécie, sendo a morfologia dos espículos o principal critério para diferenciação específica. Os ovos são típicos de tricostrongilídeos — elipsoides, de casca fina, com mórula em segmentação — e morfologicamente indistinguíveis dos ovos de Haemonchus e Ostertagia pelo exame convencional, o que torna a diferenciação por OPG impraticável sem coprocultura ou PCR.


Epidemiologia de Trichostrongylus spp.

Trichostrongylus spp. tem distribuição cosmopolita, com maior diversidade de espécies em regiões tropicais e subtropicais. No Brasil, as espécies mais prevalentes em bovinos são T. axei (abomaso) e T. colubriformis (intestino delgado); em ovinos e caprinos, predominam T. colubriformis, T. vitrinus e T. capricola. As regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte — com clima quente e alternância de períodos chuvosos e secos — concentram os maiores índices de prevalência em pequenos ruminantes.

O ciclo de vida é direto, sem hospedeiro intermediário. Os ovos eliminados pelas fezes evoluem para larvas L3 infectantes na pastagem em condições de temperatura e umidade adequadas. As L3 são resistentes à dessecação moderada, mas sensíveis ao calor extremo. A infecção ocorre pela ingestão de L3 durante o pastejo. No hospedeiro, as larvas penetram na mucosa do intestino delgado (ou abomaso no caso de T. axei), desenvolvem-se até adultos e iniciam a postura de ovos após período pré-patente de 16 a 23 dias. Diferentemente de Haemonchus e Ostertagia, Trichostrongylus não realiza hipobiose significativa, o que simplifica a epidemiologia mas mantém a pressão de infecção constante em áreas endêmicas. Os fatores de risco incluem alta lotação de pastagens, ausência de rotação de piquetes, manejo sem vermifugação estratégica e animais jovens sem imunidade estabelecida.


Patogenia

A patogenia de Trichostrongylus spp. é determinada principalmente pela penetração e desenvolvimento larval nas vilosidades intestinais e criptas de Lieberkühn do intestino delgado, com lesão mecânica direta das células epiteliais absortivas. A destruição das vilosidades provoca má absorção de nutrientes, especialmente proteínas, aminoácidos e vitaminas lipossolúveis, resultando em síndrome disabsortiva progressiva.

T. axei, espécie que parasita o abomaso, provoca lesão na mucosa gástrica semelhante à descrita para Ostertagia, com destruição das células parietais, hipocloridria e elevação do pepsinogênio sérico. Nas espécies intestinais, o processo inflamatório da mucosa leva à hipersecreção de muco, aumento da permeabilidade vascular e perda proteica para o lúmen — mecanismo central da hipoalbuminemia observada nas infecções intensas. A resposta imune do hospedeiro, embora protetora em animais adultos, contribui para a lesão tecidual na fase de eliminação larval.


Sinais Clínicos

Em ovinos e caprinos (principal grupo afetado): A forma subclínica predomina em adultos, com redução do ganho de peso, queda na produção leiteira e piora da conversão alimentar. Em animais jovens e em infecções maciças, observa-se diarreia aquosa de coloração escura (característica mais associada às espécies intestinais), perda de peso progressiva, pelo opaco e sem brilho, hipoalbuminemia com edema submandibular em casos avançados e anemia discreta. A ausência de hematofagia direta diferencia Trichostrongylus de Haemonchus, tornando a anemia menos intensa.

Em bovinos: Quadros clínicos evidentes são menos frequentes. Predomina a forma subclínica com impacto no ganho de peso de bezerros e novilhos. Diarreia associada a T. colubriformis pode ocorrer em animais jovens com alta carga parasitária, geralmente em associação com outras espécies do complexo tricostrongilídeo.

Em equinos: T. axei pode causar gastrite catarral com diarreia e perda de peso em animais jovens, raramente identificada como causa primária sem investigação laboratorial específica.


Diagnóstico

  • Métodos Tradicionais: A contagem de ovos por grama de fezes (OPG) pela técnica de McMaster é o método de triagem mais utilizado, mas não permite diferenciação de Trichostrongylus de outros tricostrongilídeos. A coprocultura com identificação de larvas L3 é o método convencional de referência para diferenciação morfológica em nível de gênero — as larvas L3 de Trichostrongylus são menores (cerca de 630–700 µm) e com cauda da bainha caracteristicamente longa. A necropsia com contagem e identificação de adultos no intestino delgado e abomaso é o método padrão-ouro para estudos de prevalência e intensidade de infecção.
  • Métodos Moleculares/Sorológicos: A PCR em tempo real (qPCR) e o sequenciamento de regiões ITS (Internal Transcribed Spacer) do DNA ribossomal permitem identificação específica das espécies de Trichostrongylus diretamente de amostras fecais, com sensibilidade e especificidade superiores à coprocultura. Painéis de qPCR multiplex para identificação simultânea de múltiplas espécies de tricostrongilídeos estão disponíveis em laboratórios especializados e representam o estado da arte no diagnóstico diferencial do complexo.
  • Indicação de Teste: Recomenda-se investigação de Trichostrongylus spp. em rebanhos com desempenho zootécnico abaixo do esperado sem causa aparente, especialmente quando o OPG revela cargas moderadas sem correspondência com sinais de anemia grave (que sugeriria predominância de Haemonchus). A identificação específica por PCR é indicada para orientar programas de controle e monitorar a eficácia anti-helmíntica diferenciada por espécie.

Tratamento

Os anti-helmínticos eficazes contra Trichostrongylus spp. incluem os principais grupos disponíveis na bovinocultura e ovinocultura brasileiras:

  • Benzimidazóis (albendazol, fenbendazol, oxfendazol): eficazes contra adultos e larvas L4; o albendazol possui ação adicional contra T. axei no abomaso. Resistência documentada em populações de ovinos e caprinos em várias regiões do Brasil.
  • Lactonas macrocíclicas (ivermectina, doramectina, abamectina, moxidectina): alta eficácia contra adultos e larvas em desenvolvimento ativo. A moxidectina apresenta maior persistência de ação e menor pressão de seleção para resistência.
  • Levamisol: eficaz contra adultos e larvas L4; mecanismo de ação diferente dos grupos anteriores, útil em esquemas de rotação para manejo de resistência.
  • Monepantel: amino-acetonitrila de nova geração, com mecanismo de ação único; indicado em situações de resistência múltipla, especialmente em pequenos ruminantes.

A realização periódica do teste de redução de contagem de ovos nas fezes (FECRT) é indispensável para monitorar a eficácia dos produtos utilizados no rebanho, dado o cenário de resistência anti-helmíntica documentada para Trichostrongylus spp. no Brasil.


Prevenção e Controle

Medidas sanitárias: A rotação de pastagens com períodos de descanso de pelo menos 3 a 4 semanas reduz a densidade de larvas infectantes disponíveis. O pastejo alternado com bovinos e ovinos pode ser estratégico, pois há especificidade parcial de hospedeiro entre as espécies do gênero. A redução da superlotação de piquetes é fundamental para diminuir a pressão de infecção.

Manejo de hospedeiros: A vermifugação estratégica baseada no monitoramento de OPG — com tratamento seletivo dos animais com maior carga parasitária (FAMACHA adaptado para indicadores produtivos) — é a abordagem mais sustentável. O monitoramento regular por PCR permite identificar as espécies predominantes no rebanho e direcionar o protocolo anti-helmíntico mais adequado. A quarentena e a vermifugação de animais introduzidos no rebanho evitam a entrada de populações com perfis de resistência diferentes.


Estudos Recentes

As pesquisas mais recentes sobre Trichostrongylus spp. concentram-se em dois temas principais. O primeiro é a epidemiologia molecular das populações brasileiras, com estudos que utilizam sequenciamento de nova geração para caracterizar a diversidade de espécies presentes em diferentes regiões e sistemas de produção, revelando que a composição das comunidades de tricostrongilídeos varia significativamente entre biomas e práticas de manejo. O segundo tema é a resistência anti-helmíntica: populações de Trichostrongylus resistentes a benzimidazóis e lactonas macrocíclicas têm sido documentadas com frequência crescente em rebanhos de ovinos e caprinos no Brasil, impulsionando a busca por marcadores moleculares de resistência específicos para o gênero e por estratégias de controle integrado que reduzam a pressão de seleção.


Curiosidades

  • Fato Interessante: Trichostrongylus spp. é um dos poucos gêneros de parasitas de ruminantes com comprovada capacidade de infectar seres humanos de forma natural — especialmente em populações rurais da Ásia, Oriente Médio e África que têm contato próximo com ruminantes parasitados. Casos de tricostrongilose humana com centenas de ovos por grama de fezes já foram documentados, demonstrando que a barreira espécie-hospedeiro nesse gênero é mais permeável do que em outros tricostrongilídeos.

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